domingo, 17 de dezembro de 201717/12/2017
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POLÍTICA
Marina Silva comenta fala de Ciro: ''Não foi ofensivo, ele estava falando sobre agressividade''
Confira:
Eu Amo Garanhuns /Jhonathas W. Oliveira Garanhuns - PE
Postada em 29/10/2017 ás 11h12 - atualizada em 29/10/2017 ás 11h21
Marina Silva comenta fala de Ciro: ''Não foi ofensivo, ele estava falando sobre agressividade''

Marina Silva e Ciro Gomes

Em visita à sede do Grupo RBS nesta sexta-feira (27), durante agenda de três dias na Capital, Marina direcionou críticas à polarização política e às reformas propostas pelo governo Michel Temer. Para a ex-senadora, um governo precisa de legitimidade para apresentar mudanças que impactam nos direitos da população. Ela admite dificuldade em viabilizar eventual candidatura diante do cenário que combina poucos segundos de propaganda à miúda parcela do fundo eleitoral. Mas, diante das dificuldades, mostrou-se atenta.


 


A senhora será candidata à Presidência em 2018?


MARINA: Estou fazendo uma série de conversas e me questionando sobre a melhor maneira de contribuir, se sendo candidata novamente ou participando do debate com ideias e propostas. Obviamente, com senso de responsabilidade com o que está acontecendo no Brasil. Estamos diante da pior crise depois da ditadura, com prejuízos que nem sabemos para onde se desdobrarão. Mas sabemos o que aconteceu. Éramos a oitava economia (mundial), agora somos a 13ª (segundo o Banco Mundial, é a nona). Éramos o país do pleno emprego, agora estamos nessa situação. Tenho muito respeito às 22 milhões de pessoas que acreditaram que é possível fazer o debate e ganhar com propostas, não com abuso do poder econômico. Logo estarei fechando esse ciclo e, ao fechá-lo, não tenho porque ficar fazendo de conta.


Quando esse ciclo deve se fechar?


MARINA: Em breve.


Como viabilizar sua candidatura diante de um escasso tempo de TV e de uma miúda parcela do fundo eleitoral?


MARINA: Em primeiro lugar, você precisa estar disposto a ter um programa. Boa parte dos problemas que vivemos ocorre porque os grandes partidos da polarização renunciaram à discussão de um projeto de país e ficaram só no projeto de poder. Independente de ser candidata em 2018, é fundamental atualizar esse programa para o debate com a sociedade. Dilma (Rousseff) ganhou sem um programa, com um cheque em branco. Outra questão está no diálogo no processo político. O Brasil está indo para um caminho de apartação e ódio, o que não tem a ver com o povo brasileiro. É algo que foi comprado pelos partidos da polarização para a vida das pessoas. Antigamente, éramos de partidos diferentes, mas íamos para festas, igreja e bares juntos. Agora, não. Isso não tem nada a ver com firmeza de ideias e propostas, mas com querer esconder o essencial. Como não querem discutir projeto de país, só projeto de poder, o melhor caminho é brigar pelo poder. Como perderam o rumo da nação, o melhor caminho é ficar só discutindo a próxima eleição.


Nesse acirramento de ânimos, cresce a perda de credibilidade pela classe política. Diante desse cenário, há espaço para que um outsider conquiste a população?


MARINA: Minha vó tinha um ditado que dizia que gato escaldado tem medo de água fria. Espero que a água quente que já recebemos com essa história de alguém apolítico nos ensine a permanecermos bastante atentos. Não acho que o caminho esteja na negação da política. Podemos ter inovação, novos quadros. É necessário e bem-vindo, mas desde que não venha com a demagogia de que não é político. Quando você diz isso, você está fazendo política. Não tenho motivo para me envergonhar da política que fiz até hoje. Se alguém tem vergonha da política, que trate de contribuir para que melhore. A política continua sendo a arte do bem comum. É serviço. Quem a utilizou para fins espúrios criou essa situação de incômodo. Não posso me conformar com isso. O PT e o PSDB contribuíram na década de 1980 para atualizar a política, mas perderam-se e hoje estão envolvidos em grandes escândalos. O problema está nessa lógica de se perpetuar no poder. O mandato é de quatro anos. Se a população quiser mais, será resultado do seu trabalho. Não porque você roubou estatal, fundo de pensão ou vendeu medida provisória para formar um caixa milionário para se perpetuar no poder. 


Recentemente, Ciro Gomes (PDT) disse que o Brasil precisava de "testosterona" ao se referir à senhora e Jair Bolsonaro (PSC) lhe chamou de "tartaruga vermelha". Esses ataques lhe desestimulam de concorrer?


MARINA:  Sobre a história da tartaruga, até achei um elogio. Sou uma ambientalista, e ambientalista não tem preconceito contra bicho.


Na realidade, era uma crítica de que a senhora se esconde em momentos de crise e, mais tarde, reaparece.


MARINA: Não é verdade. As pessoas querem que você diga o que elas querem. Aprendi a duras penas que a liberdade é o exercício de fala livre e autônomo. O fato de não dizer o que querem não significa que não estou dizendo. Quem está defendendo a Lava-Jato, o Ministério Público e a Polícia Federal desde o princípio? Façam uma pesquisa em minhas redes sociais e em minhas entrevistas. Quem defendeu que, ao invés de perdermos tempo com governos que são face da mesma moeda, deveríamos ter uma nova eleição, cassando a chapa Dilma-Temer? Quem se posicionou contra o foro privilegiado, a lei de abuso de autoridade, a anistia do caixa 2, o fundo bilionário de campanha eleitoral? Quem entrou com ação para que investigados não ficassem na linha sucessória e com pedido de cassação do Delcídio Amaral, Aécio Neves e Eduardo Cunha? São falas, mas sem a audiência da polarização.


Quanto ao ataque de Ciro Gomes, como a senhora responderia?


MARINA: A conclusão que cheguei foi que ele criticou a questão da energia. Ele disse que o momento era de muita agressividade e não via isso no meu perfil. Porque era uma coisa de "testosterona", que ele até discordava, mas que eu não tenho perfil psicológico para entrar nesse tipo de guerra. Entendi que não era ofensivo a mim, mas a essa ideia de que estão brigando.


Ser vice de Ciro Gomes está no seu radar?


MARINA:  Acho legítimo o PDT ter um candidato, e o Ciro está se colocando como tal. Não quero ser a pessoa contra o debate. Enquanto puder contribuir, vou fazê-lo. Estou nessa peregrinação desde 2010. Em 2014, sofri as piores injúrias e não fiz o mesmo. Cada um tem seu perfil. Vejo muitas pessoas se esforçando para parecer que estão calmas. Graças a Deus, já tenho isso em mim. Por que me esforçar para comprar briga se vejo as pessoas se esforçando para se manterem serenas?


Nos termos em que está colocada, a senhora considera a reforma da Previdência necessária?


MARINA:  Não é a melhor, porque já veio eivada de injustiças sobre um tema muito sensível. Quando uma pessoa precisa contribuir 49 anos para sua aposentadoria integral, já contamina o debate. É um problema um governo com 3% de popularidade achar que pode mexer com os direitos sociais porque não tem nada a perder. Há a necessidade de reforma, porque estamos à beira de perder o bônus demográfico e temos problemas em relação ao déficit da Previdência. Pode não ser do tamanho que dizem, mas temos. Precisamos encarar isso sem demagogia. Mas querer passar goela abaixo da sociedade uma reforma escutando só o lado do empregador inviabiliza o debate. O mesmo ocorre em relação às outras reformas, como a trabalhista. O governo precisa ter o que perder quando mexe com os direitos da sociedade e pagar o preço por isso. Quando se fazem as coisas porque não se tem o que perder, quem perde é o Brasil.


Se fosse presidente, qual reforma na Previdência a senhoria proporia?


MARINA:  Temos o déficit e a necessidade de adequação, porque a população tem uma longevidade muito maior do que quando as leis foram aprovadas. Tanto é necessária (a reforma), que FHC, Lula e Dilma fizeram um pedaço. Se não fosse, ninguém estava metendo a mão nessa cumbuca. Temer está tentando algo abrangente, mas você não pode propor uma reforma para subtrair direitos sem as pessoas terem clareza do que ganharão a longo prazo. O Brasil enfrenta um déficit de credibilidade muito grande. Não adianta convocar as pessoas para fazerem sacrifícios se é para manter seis ministros investigados na Lava-Jato e os privilégios com dinheiro público, vendendo emendas parlamentares. Isso não cabe na cabeça das pessoas. Para fazer reformas é preciso adquirir legitimidade e credibilidade. Aí sim, pode se dialogar com trabalhadores e empresários e sinalizar a necessidade e os problemas. Quando disse que era necessária uma atualização, fui triturada. Temer e Dilma não disseram que eram necessárias reformas. Ganharam afirmando que o Brasil era divino e maravilhoso. O mesmo ocorreu na reforma tributária.


Quais os seus princípios para uma reforma tributária?


MARINA:  Primeiro, transparência. Segundo, justiça tributária. Hoje, as pessoas que ganham menos pegam mais. Precisamos de uma reforma tributária que não centralize recursos na União, fazendo a distribuição correta para Estados e municípios, e que favoreça o investimento. Hoje, quem quer investir paga um preço alto. Os valores estão na simplificação, na transparência e na justiça tributária. A complexidade dos tributos faz com que as pessoas se transformem em sonegadores, se não gastam todo o dinheiro que ganham em tributos. É possível que se tenha uma simplificação tributária e, que fique bem claro, que não seja para aumentar tributos.


A senhora questiona a legitimidade de Temer para encaminhar as reformas, mas apoiou o impeachment de Dilma e defendeu que não era "golpe". A senhora se arrepende?


MARINA: De jeito nenhum. Não foi golpe, mas de acordo com a Constituição, tanto é que o presidente do Supremo dirigiu aquela sessão. Dizia que alcançava a legalidade, mas não alcançaria a finalidade, como não alcançou. Dilma e Temer eram face da mesma moeda e praticaram os mesmos crimes no governo, seus partidos igualmente, tem lideranças do PT e do PMDB fortemente envolvidas. O melhor caminho era a cassação da chapa Dilma-Temer e convocar novas eleições. Infelizmente, esse caminho não foi seguido e o Brasil está pagando o preço até hoje. Essas votações saem muito caro para o contribuinte. São distribuição de emendas, de cargos, mudança na legislação trabalhista. O retrocesso de dizer que só caracteriza trabalho escravo se tiver cerceada a liberdade está dizendo o que? É preciso ter uma corrente na perna para caracterizar trabalho escravo? Esses retrocessos são o custo que o Brasil está pagando. Anistiar 60% das multas sobre crimes ambientais, pessoas que praticaram crimes em troca de voto... São prejuízos inúmeros. Não está ajudando o Brasil. Tem uma equipe econômica competente, mas, por mais competente que seja, quem tem de sustentar a equipe econômica é o governo. Temos a inversão. Quem sustenta o governo é a equipe econômica.


Se eleita, a senhora apresentaria mudanças na reforma trabalhista?


MARINA: Vou dar um exemplo, para não entrar em detalhes. Você dizer que uma mulher grávida pode trabalhar em condições de insalubridade desde que haja um laudo... Quem fará esse laudo? O médico da empresa? Ele terá isenção? E a questão da hora intermitente. Você fica à disposição, não pode faltar se o empregador chamar, mas também não sabe quando será chamado. E se por ventura estiver fazendo outra coisa, perde seu trabalho. Alguém acha isso justo? Há também uma questão de princípios quando se diz que o que vale é o acordo entre as partes. Na legislação brasileira, não existe absolutamente nada que diga que um acordo entre as partes se sobrepõe à lei. O que orienta é a lei. É preciso uma adequação. Se não, o céu é o limite. Há a intenção de que se tragam mais pessoas para a formalidade e de resolvamos problemas de inovação produtiva, mas, na forma como está sendo feito, está se ouvindo apenas um lado, que é o do empregador. Ele deve ser ouvido, mas o trabalhador também precisa ser ouvido. O Estado serve para mediar os diferentes interesses.


Recentes pesquisas mostram Lula em primeiro lugar na corrida eleitoral, e a senhora e Bolsonaro empatados na segunda posição. Como avalia esse resultado? 


MARINA: Devemos tratar as pesquisas com respeito, mas são somente o registro de um momento. Ainda há muita água para correr debaixo dessa ponte.


Mas como a senhora analisa Lula em primeiro lugar, mesmo condenado por corrupção, e a ascensão de Bolsonaro?


MARINA: Acho que as pessoas estão buscando um caminho. Li o livro Em busca da política, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que diz que um dos fenômenos do século XXI está na troca de liberdade por segurança. No Brasil, quando veio o acirramento e algumas pessoas ouviram que perderiam o Prouni, o Pronatec, o Minha Casa Minha Vida, o Bolsa Família... As pessoas trocaram liberdade por segurança. Temos de compreender esses fenômenos, que são fruto desse rescaldo. Espero que não ganhe o medo, mas a esperança. Não estamos em uma guerra final, nem vamos escolher um dirigente para o resto da vida. É para quatro anos. A alternância de poder é ótima para a democracia. Não se pode ter um projeto de poder que funciona só com um partido e uma pessoa. Quando isso acontece, algo está errado. O erro está em não institucionalizar conquistas. Em uma democracia evoluída, você não "fulaniza", não partidariza. Você institucionaliza. Precisamos inaugurar a política de longo prazo no nosso curto prazo político. Esse povo faz política de curto prazo para alongar seu prazo na política. 

FONTE: GaúchaZH
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