O amor é tudo, com exceção daquilo que não é.
Esse paradoxo merecia todas as explicações das quais eu não sou capaz de dar. Merecia que eu abrisse cada uma dessas palavras e extraísse delas o suprassumo dos seus significados, que eu fosse capaz de tornar em poesia aquilo que não passa de uma vírgula. No entanto, eu só consigo ir até onde meus pés alcançam, e eles ainda não andaram o suficiente ao ponto de conhecer tudo que o amor é. Essa vasta extensão, que dizem beirar o infinito, parece tão distante de mim quanto as estrelas que explodem sobre minha cabeça.
O que não quer dizer que eu não saiba de algumas coisas. Que o amor, por exemplo, não suporta tudo, porque existem pesos e pessoas capazes de sufocá-lo, matando-o debaixo de um peso violento e brutal. Que poder e amor, até onde temos visto, não caminham assim tão bem de mãos dadas. Alguém sempre sai perdendo. Alguém sempre sai sangrando.
Também sei que amor não é sinônimo de dor, que ele não precisa nascer daí para ser bonito. Sei que os machucados e arranhões cheios de poeira e terra que conseguimos escalando as montanhas do sentimento se tornam perigosos se não forem vistos e bem cuidados — e que isso só acontece, portanto, através do que realmente é o amor.
Nem toda dor é falta de amor, mas nem todo “amor” é sinônimo de amar (e cuidar).
Sei que o amor não é para uma vida, mas que todos os amores que amei me deram anos por cem delas. Vivi uma vida inteira dentro de cada amor que amei, mesmo que ele não tenha durado o tempo que estou vivendo agora.
Eu sei que o amor pode ser egoísta, e que não há anulação apesar das duas coisas não combinarem tanto assim na prática. Mas também aprendi que amor sem benevolência é mais necessidade do que compromisso, e que sentir e agir são coisas muito distantes nesse e em qualquer outro universo. Distantes pelos passos da escolha.
Aprendi que o amor pode dizer não. Que ele deve dizer não.
Também aprendi que o amor sempre tem mais de um lado, e que alguns deles não são tão bonitos quanto nossas histórias e textos contam. E, ainda, que só é possível descobrir que face ele vai nos apresentar se tivermos ousadia o suficiente para encará-lo com tudo que somos, tudo que temos.
O amor é tudo. Com exceção, é claro, daquilo que ele não é.