
No dia seguinte, acordei ainda mais cedo do que o habitual, erguendo-me para abrir as cortinas e as janelas. Corri até a cozinha, fiz um chá rápido e voltei ao quarto assim que pude. A fumaça da xícara serpenteava em espirais esbranquiçadas que esmaeciam até desaparecer completamente, como em câmera lenta.
A poltrona marrom (o último presente que me deu) ainda estava na mesma posição que ela havia deixado, exatamente no espaço onde se via a paisagem das folhas das árvores do nosso quintal e os tetos das casas vizinhas, que se misturavam e criavam aquele cenário pitoresco que ela tanto gostava de observar. Ficava em silêncio por longos minutos, todos os dias, enquanto via o amanhecer derramar aquela luz amarela ali e sobre nosso quarto.
Eu realizava o ritual sempre que o corpo permitia. Gostava de imaginar que ela voltava junto com a luz que se esgueirava pelo cômodo, preenchendo o ambiente com um tom dourado e uma agradável sensação de calor que me fazia sentir ainda mais em casa.
Até ontem, meu lar costumava ser uma presença.
Agora, à noite, quando a luz se recolhia e dava espaço à ausência dela, no lugar permanecia a esperança de que no dia seguinte seu calor irradiaria sobre mim de novo, como um abraço no meio da eternidade do vazio.