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Cultura Crônicas - GCF

A FEIRA

Por Givaldo Calado

13/06/2020 21h59
Por: Jonathas William J.W / Garanhuns Notícias
A FEIRA

Feira. Essa palavra me persegue desde menino. Na verdade, desde criança, ainda. Dela, falo muito. Outro dia, dizia em palestra em algum lugar: “Esse substantivo feminino me persegue desde tenra idade.” Será por que é feminino? De certo que não. É porque é feira mesmo, e eu cresci dentro de uma feira em minha cidade. Mas dentro mesmo, porque na porta de minha casa. Lá, na Dantas Barreto. E ela não se limitava àquela avenida. Ela ia além, crescendo, queria espaço. Era natural que viesse ocupar toda a cercania ou quase toda da Dantas Barreto, chegando à Praça Dom Moura, já de passagem pela Praça da Bandeira.

Era uma verdadeira festa, como, aliás, ainda é em todas as feiras da “Cidade Encanto”, da “Cidade Poesia” de Garanhuns. E alhures, também. Sim, em todo nosso país. E, por certo, mundo a fora.

Outro dia, procurei um amigo em Recife, em sua casa. “Ele saiu, Seu Givaldo. Foi à feira.” Agradeci e fui embora. De volta, em minha cabeça, João indo a feira? Nunca soube desse seu hábito. E em minha cabeça: “Ele saiu, Seu Givaldo. Foi à feira”. Ficara intrigado. Mas porque duvidar da informação. A moça foi tão..., mas tão segura. Peremptória. “Foi à fera”. Ah! Vou procurar João, de novo. Amanhã volto lá.  

Dia seguinte, eu, lá. “João está?”. “Está sim, senhor.” Que bom! Não perdi minha viagem, e, hoje João vai me dizer umas e outras sobre essa tal feira. Logo ele, meu vizinho, de anos, da Dantas Barreto, que vivia a reclamar da feira em nossas portas. Em particular, das melancias, das mangas, das jacas... Ah! Não esqueço dos “quebra-queixos”, que eu comia com meus irmãos e meu pai, panela na mesa à frente dele, “quebra queixos”, e, ele, a repetir para nós, seus seis G’s: “Doce é pra beber água”. E “tome doce”, máxime dos imbatíveis “quebra-queixos”.

“Mas João, nunca mais nos vimos! Você, agora, é só capital. Você lembra, faz muito tempo, do que me dissera: ‘Givaldo, quem faz carreira no mato é veado!’?” “Lembro, Givaldo! Lembro. Aqui, é outro mundo. Tem hora que penso que estou na Europa, pra onde vou sempre. Dois ou três daqueles países... A conversa é outra. Muito diferente.” “E você conversa muito por lá?” “Aí, Givaldo, onde reside o problema: passo vinte, trinta dias por lá, mas chego calado e saio mudo.”          

“Ontem, você esteve, aqui. A secretária me disse. Fui conferir umas feiras, lá, pelos Shoppings.”

“Como é a história? Pelos Shoppings? Ah, João! Logo vi. Você não foi a uma daquelas de frente das nossas casas da Dantas Barreto, as chamadas ‘Feiras Livres’. Por certo alguma ‘Feira de Livros’, ‘Feira de Discos’, ‘Feira de Ciência’...

É que sua secretária não falou como Machado de Assis alude em Dom Casmurro ‘aos pedaços, mastigando; em voz um pouco surda e tímida.’ Ela fora direta, de vez, peremptória: ‘Seu João foi à Feira’.” 

Saí triste da casa do amigo João. E, a me perguntar: que carreira ele fez fora dos matos de que tanto me falava? Que países da Europa ele conheceu sem conhecer? Sim, porque sem falar com as pessoas, sem conversar com as pessoas. Ora, ora, vou continuar nos matos. E, depois, não queria falar, vi onde ele mora. Ah! João!  

GIVALDO

Calado de Freitas

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