O anúncio de que o governo federal pode extrapolar o teto de gastos para pagar o Auxílio Brasil — benefício que substitui o Bolsa Família — no valor mínimo de R$ 400 até o fim de 2022, fez especialistas do mercado financeiro elevarem a projeção de alta da Selic (taxa básica de juros) na próxima semana.
A previsão inicial era de que o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) elevasse a Selic em 1 ponto percentual, passando dos atuais 6,25% para 7,25%.
Em meio a temores fiscais especialistas do mercado financeiro acreditam que a taxa básica deve subir mais do que 1 ponto percentual.
Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor-executivo da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), acredita que o auxílio é importante considerando o momento que estamos vivendo. Porém, a questão é muito maior, segundo ele.
"O governo teve muito tempo para buscar alternativas e viabilizar recursos para atender a população, mas sua preocupação agora é melhorar sua avaliação pensando nas eleições do ano que vem. A questão que fica é a regra do teto de gastos criada para evitar que os governos se endividassem sem limites porque isso traz consequências", diz.
Oliveira destaca que as consequências o país já deve começar a sentir na próxima semana com o resultado da reunião do Copom, que deve elevar a taxa de juros mais de 1 ponto percentual.
Oliveira vai além: "a forma que foi conduzida a situação é muito ruim. O recado que trouxe para o mercado. O governo poderia ter criado mecanismos, reduzido as despesas e buscar alternativas que não fosse furar o teto porque vai gerar dívida sem limites e isso trará juros, inflação e desemprego".
Caio Megale, economista-chefe da XP, destaca que o teto de gastos é importante pelo fato de o Brasil ser um país muito endividado.
"A nossa dívida pública está na ordem de 80% do PIB [Produto Interno Bruto], ou seja, 80% de tudo o que a gente gera de riqueza nós temos em dívida, enquanto a média dos países emergentes é em torno de 50%. E essa dívida não é só elevada como tem um juro alto no país que atua sobre esse estoque de débitos", conta.
O equilíbrio do déficit público, segundo Megale, é importante porque dá credibilidade de que nossos ativos, ao longo do tempo, vão ser honrados, que nossa dívida e títulos públicos serão honrados e o governo será solvente. Não vai precisar acelerar inflação, emitir moeda ou dívida para pagar seus compromissos.
Assim como Oliveira, Megale também considera que o auxílio é importante para ajudar a população neste momento.
Porém, o fato de o governo sinalizar que pode extrapolar o teto de gastos em vez de ajustar o orçamento cortando despesas não relevantes como emendas parlamentares, subsídios a diversos setores da economia, não é positivo.
"Se o endividamento do governo será maior, a taxa de câmbio e de juros também será maior. Provavelmente haverá um aumento maior na inflação e pressão maior para gasolina e alimentos. Com isso, o BC deve subir ainda mais a Selic na próxima semana, mais do que 1 ponto percentual."
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