
Segue normalmente a vida política brasileira. Indo e vindo em livros de história o que se depura é que, não fosse pelos tipos de tecnologias pelas quais nos chegam as informações, resultando nas corriqueiras náuseas e enxaquecas, intercaladas de alegrias e esperanças, não há nada de genuinamente novo nos anais deste emocionante país tropical. Ou alguém acredita que já fomos diferentes, melhores? Altas autoridades imiscuídas em acordos espúrios, aliançados em projetos elitistas de sobrevivência, especialistas na prática de atos simetricamente alinhados com as mais de três centenas de artigos do código penal, amantes dedicados do dinheiro alheio e do poder, cortes corteses com os seus fiadores, devedora de favores e uma boba plateia de plebe. Nada mais verde e amarelo que tudo isso.
No julgamento da história da República, um juiz determinado enfrenta seus pares-feras num coliseu inteiro de truques, ciladas e interpretações. Tem a solidariedade de alguns, mas não o suficiente. Não lhe sendo novidade tal cenário, dedicou cada reação química neuronal a descortinar de todas as formas a encenação cadavérica dos que se negam a ver o abuso de poder político e econômico, e acintes decorrentes dos desvios bilionários de empresas públicas que irrigaram generosamente campanhas políticas suprapartidárias durante décadas.
No conforto da temperatura do ambiente, com pronta assistência de subalternos, em goles de água de coco e sob os holofotes da nação, uma peça muito bem ensaiada, que se adapta com alguma facilidade às tentativas de um certo “filho da felicidade” e “bem-amado” Benjamin, Herman. Ninguém tem dúvidas de que estamos diante de uma uma espécie de teatro de vampiros. Sugadores de esperanças, da juventude que quer acreditar que há jeito para a nação e expecta pela altivez moralizante de um poder chamado à responsabilidade para por fim a um sistema especializado em fraudar eleições e saquear cofres públicos, juízes escolhidos a dedo executivo cumprem cabalmente seu desígnio - garantir que tudo permanecerá dentro da normalidade. Sem alterações no sistema. Apenas soluços de justiça. Incômodos soluços.
Este é o nosso mundo. O que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos. “Os assassinos estão livres, nós não estamos.” Eles sugam a nação, castram nosso futuro, enterram nossa honra, obliteram nossa grandeza, acovardam-se diante “de um oceano de provas” Quero sair, mas não tenho mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego.
Nos resta a resistência, a resiliência e a militância criativa, artesanal, persistente e consciente de que é preciso reinventar mecanismos de proteção social, uma estrutura institucional fundamentada nos valores republicanos, livre de sanguessugas, eficiente, proba e pronta a atender os interesses da sociedade. Pode um juiz fazer muitas coisas, mas não nos enganemos: a revolução não vem de toga!
Por Douglas Lemos – REDE/PE
*O teatro dos vampiros, Legião Urbana, 1991.